O estado de São Paulo deve atingir ainda este ano a capacidade instalada recorde de 1 milhão de metros cúbicos por dia na produção de biometano. O volume é suficiente para atender integralmente o consumo de gás canalizado de todas as 2,8 milhões de residências conectadas à rede paulista, ou 65% de todos os imóveis da cidade de São Paulo, que possui 4,3 milhões de residências, segundo dados do Seade.
Considerando principalmente a utilização de resíduos provenientes do setor agroindustrial e de aterros sanitários, o estado concentra hoje algumas das principais iniciativas de biometano do país e concentra nove das 19 plantas de biometano em operação no Brasil. Parte dessas ações, que integram uma estratégia mais ampla de valorização de resíduos, foi apresentada por representantes da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), durante evento voltado à aceleração de negócios em biogás e biometano na semana passada.
A capacidade instalada de um milhão de m³ por dia de produção de biometano, à plena operação, é equivalente à substituição de, aproximadamente, 4 mil ônibus urbanos a diesel. Um estudo contratado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com apoio técnico e institucional da Semil, mostrou que veículos pesados, como ônibus e caminhões, são candidatos promissores para a conversão ao biometano, que já possui aplicações comerciais em outras partes do Brasil e no mundo. O consumo energético do transporte rodoviário do estado de São Paulo representa 26% do consumo nacional e é composto majoritariamente de óleo diesel, gasolina e álcool.
Realizado pela InvestSP, agência de promoção de investimentos vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) , e pela Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), com apoio da Semil, por meio da Subsecretaria de Energia e Mineração, o evento teve como objetivo ampliar a articulação estratégica, reunindo reguladores, formuladores de políticas públicas, investidores e empresas líderes do setor de biogás e biometano para discutir novas formas de destravar projetos e impulsionar novos modelos de negócio, além de criar redes de networking capazes de promover trocas de conhecimento, gerar oportunidades e construir novas parcerias.
Durante a abertura do evento, Marisa Barros, subsecretária de Energia e Mineração da Semil, destacou o estado de São Paulo como o principal protagonista nacional na produção de biometano, concentrando nove das 19 plantas em operação no Brasil. “Temos uma infraestrutura que garante ao território paulista uma capacidade instalada superior a 700 mil metros cúbicos por dia, o que representa cerca de metade de toda a produção do país. Outras 11 unidades estão em fase de autorização pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Com isso, o estado se prepara para atingir a marca recorde de cerca de um milhão de metros cúbicos (m³) por dia até dezembro deste ano, dentro de um potencial estimado de 6,4 milhões de m³/dia”, explicou Marisa Barros.
O primeiro painel do evento abordou o desenvolvimento de negócios em biogás e biometano, sendo mediado por Tiago Santovito, diretor-executivo da ABiogás. Especialistas trataram sobre o mercado de biometano em São Paulo e no Brasil, que passa por forte expansão regulatória e estrutural, impulsionada por leis estaduais e federais. Eles trouxeram visões integradas sobre os principais elementos que viabilizam projetos no país.
Representando a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) , vinculada à Semil, Allan Cellim da Silva, da Diretoria de Controle e Licenciamento Ambiental, explicou as diretrizes e os procedimentos para licenciamento ambiental de plantas de biometano e efluentes, que nos últimos anos passaram por grande modernização estrutural com o objetivo de reduzir o tempo médio de aprovação para até 60 dias, estabelecendo regras claras e padronizadas para o setor.
“O biometano é um pilar estratégico na descarbonização do estado de São Paulo, substituindo combustíveis fósseis como diesel e gás natural, com até 99% menos emissões de gases de efeito estufa. A Cetesb viabiliza essa transição ao garantir o licenciamento seguro e ágil de plantas e integrar o biocombustível à economia circular”, disse Allan Cellim. Ele ressaltou o crescimento do uso do biometano pela indústria, em vários segmentos. “Emitimos cerca de 20 mil licenças ambientais por ano, sendo aproximadamente 30 a 40 tipos de indústrias que já utilizam o biometano em seus processos produtivos”, explicou.
Laís Almada, diretora de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da Semil, trouxe um panorama de políticas estaduais que fomentam e impulsionam a expansão da infraestrutura de biometano em São Paulo. Entre os destaques, ela ressaltou a tomada de subsídios sobre os certificados de origem do biometano nos inventários de emissão a serem encaminhados à Cetesb por empresas paulistas. O objetivo é fomentar o mercado do atributo ambiental do biometano, por meio de um instrumento voluntário. As contribuições de agentes do setor estão sendo consideradas e irão contribuir para um mecanismo que permite a rastreabilidade do biometano e o fortalecimento desse mercado.
“Além dessas ações, São Paulo deu também mais um passo para o desenvolvimento do mercado de biometano ao firmar parceria internacional com o Swedfund International AB, instituição financeira de desenvolvimento do governo da Suécia. O objetivo é realizar estudos técnicos para dimensionar investimentos necessários à implantação de novos gasodutos de biometano, além de avaliar o potencial de recuperação do digestato e propor modelos de negócio para a produção e comercialização de biofertilizantes orgânicos em plantas de biometano no estado”, explicou Laís Almada.
A diretora da Semil ainda ressaltou a importância do Plano Estadual de Energia 2050 (PEE 2050) de São Paulo como parte estratégica do estado para atingir a neutralidade de emissões de carbono até a metade do século, alinhando-se à iniciativa global Race to Zero da ONU. “O biometano se destaca por ser um combustível de fonte renovável, de baixa intensidade de carbono, e que pode ser injetado diretamente na rede de gasodutos existente ou utilizado na mobilidade, como em frotas pesadas e ônibus, sendo alternativa ao diesel”, explicou Laís Almada.
Responsável por autorizar e fiscalizar as operações de plantas de biometano, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) também estabelece os padrões de qualidade para sua produção e distribuição. Para obtenção da autorização, as empresas devem protocolar junto à ANP um comunicado com as informações técnicas do projeto antes da construção ou modificação da unidade produtora. As autorizações são concedidas mediante o cumprimento das normas regulatórias e dos requisitos técnicos estabelecidos.
“A ANP tornou o processo de autorização e comercialização do biometano mais eficiente, modernizando seu arcabouço regulatório, alinhando-o às diretrizes da Lei do Combustível do Futuro e ao Programa Nacional de Descarbonização, e isso contribui, por parte dos estados, para a conexão com as redes de distribuição canalizada”, explicou Marcos Werner, superintendente de Produção de Combustíveis na ANP.
Ele ressaltou que, nos últimos anos, houve um aumento expressivo no volume de solicitações para a outorga e o início de operação de novas plantas industriais de biometano no Brasil. “Notamos que esse aumento foi impulsionado pela recente regulamentação de incentivos federais e também estaduais. A tendência, para 2026, é de elevação da produção de biometano. Há muita diversificação de matérias-primas, especialmente Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) enviados para aterros sanitários e transformados em biogás, além dos resíduos agrossilvopastoris, com ampla distribuição geográfica nacional. Portanto, há muito potencial para todas as regiões do país”, afirmou Werner.
Ainda neste painel, um tema abordado por representante da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) foi a interconexão com redes de gás e expansão da infraestrutura paulista. Maria Eugênia Bonomi, gerente de Estudos Técnicos, Regulação e Contratos, trouxe um panorama da atuação regulatória para gás natural e biometano no estado, que conta com pouco mais de três milhões de consumidores de gás canalizado em SP.
“A interconexão com redes de gás ampliará gradualmente a produção do biocombustível. Esse processo transforma resíduos em combustível, permitindo que o biometano seja injetado diretamente nas tubulações existentes e distribuído aos consumidores. Isso representa um grande avanço estratégico para a expansão do mercado de biometano paulista, contribuindo para a descarbonização da matriz energética de SP”, explicou Maria Eugênia.
Recentemente, a Arsesp aprovou a interconexão da planta de biometano da Solví Essencis Ambiental, no aterro de Caieiras, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, à rede de distribuição de gás canalizado da Comgás.
O evento contou ainda com apresentações de representantes da SPTrans (São Paulo Transporte), vinculada à Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito (SMT) da Prefeitura de São Paulo, que abordaram os testes com ônibus movidos a biometano, em caráter experimental, iniciativa que faz parte do programa BioSP, lançado para contornar gargalos na infraestrutura de recarga dos veículos elétricos na cidade.
Presente no evento, a Natura apresentou a sua iniciativa ao utilizar biometano na sua maior operação na América Latina, localizada em Cajamar, em SP. O combustível limpo abastece 45% dos processos industriais e movimenta 100% da frota logística que circula entre a fábrica e a Grande São Paulo. O biometano utilizado é proveniente do aterro sanitário de Caieiras, o maior da América Latina, e substitui os combustíveis fósseis.
A Geo Bio Gas & Carbon, empresa brasileira pioneira no desenvolvimento tecnológico para a produção de biogás, biometano e combustíveis verdes avançados, abordou as oportunidades na produção de combustível de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês) a partir de biogás de resíduos de biomassa do setor sucroenergético. Com apoio do governo paulista e parceiros internacionais, o projeto visa descarbonizar o setor aéreo utilizando resíduos de biomassa.
O evento também abriu espaço para o diálogo com os participantes, com rodadas de perguntas, promovendo escuta ativa e o compartilhamento de experiências sobre as ações em andamento e as que estão por vir.
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