A China tem se consolidado como um dos principais polos de inovação global, deixando para trás a imagem de país voltado apenas à produção em escala. O movimento, que vem sendo chamado de transição do "Made in China" para o "Created in China", reflete uma estratégia nacional de fortalecimento de marcas próprias e desenvolvimento tecnológico. Dados divulgados pela Gazeta Mercantil mostram que, em 2010, apenas 4% das 500 marcas mais valiosas do mundo eram chinesas. Em 2025, esse número saltou para 14%, evidenciando que o país não é mais reconhecido apenas como a fábrica do mundo, mas também como centro de design, inovação e narrativa de marca. Segundo o relatório Kantar BrandZ 2025, o valor total das 100 marcas chinesas mais valiosas cresceu 25% em um único ano, alcançando US$ 1,2 trilhão.
Para Rodrigo Lopes, CEO da assessoria de importação Global RPX, a mudança não ocorreu por acaso. "Em 2015, o governo lançou o programa Made in China 2025 com um objetivo muito claro: transformar produtos chineses em marcas chinesas, velocidade em qualidade e fabricação em criação", afirma. "Não foi uma tendência espontânea, foi um plano estruturado, com metas, investimento público e política industrial. E, quando a China decide executar um plano assim, ela executa com uma velocidade que o mundo ocidental ainda não aprendeu a acompanhar", acrescenta.
Segundo o executivo, a transição ocorreu de forma gradual, primeiro dominando a produção em escala e aprendendo a fabricar praticamente qualquer produto, depois investindo em design, tecnologia e pesquisa. "Hoje é difícil negar o impacto. A Shein lança entre 2.000 e 10.000 produtos por dia, enquanto a Zara lança 4.500 por ano. A BYD superou a Tesla em vendas de carros elétricos. A DJI controla entre 70% e 80% do mercado global de drones. Essas empresas não competem em preço; elas definem o que o mundo vai comprar. Isso é uma virada completa de chave", avalia Lopes.
O avanço tecnológico também tem sido determinante. Universidades como Tsinghua figuram entre as melhores do mundo em engenharia e ciências exatas, formando milhares de pesquisadores e engenheiros anualmente. "Existe um preconceito de que a China só replica o que outros países criam, e isso já foi verdade em algum momento, mas não é mais o que define o país hoje".
"A BYD, por exemplo, desenvolveu baterias com custo de US$ 44 a 56 por kWh, contra uma média global de US$ 115. Isso é tecnologia própria, patente própria, pesquisa própria. A empresa tem mais de 48 mil patentes registradas", destaca o executivo.
Outras empresas também reforçam esse movimento. A Xiaomi anunciou US$ 7 bilhões em pesquisa e desenvolvimento para os próximos cinco anos, incluindo o desenvolvimento de chips de 3 nanômetros para competir diretamente com players conhecidos. "Hoje eles desenvolvem, patenteiam e exportam tecnologia própria para o mundo", frisa Lopes.
Essa mudança impacta diretamente o comércio internacional e a relação com fornecedores chineses. "O fornecedor chinês é muito transparente. Ele entrega qualidade a partir do valor que você está disposto a pagar. Se você o espremer no preço, ele vai produzir dentro daquilo que o valor permite e vai te dizer isso abertamente. Não tem mágica, tem uma equação honesta de custo e qualidade. O importador que entende isso sai na frente, porque para de negociar só preço e começa a negociar valor, prazo e desenvolvimento de produto", ressalta.
Canton Fair leva tendências ao mercado global
Dados divulgados pela Administração Geral das Alfândegas e compartilhados pela Exame mostram que o comércio exterior da China registrou recorde de 43,85 trilhões de yuans (aproximadamente US$ 5,9 trilhões) em 2024, crescimento de 5% em relação ao ano anterior. Esse avanço mostra um mercado cada vez mais sofisticado e estruturado, exigindo que a relação comercial acompanhe esse nível.
Nesse contexto, a Canton Fair, maior feira multissetorial do mundo realizada em Guangzhou, na China, ganha ainda mais relevância. O evento reúne mais de 35 mil expositores de 218 países, cobrindo setores que vão de eletrônicos a têxtil, de maquinário a cosméticos.
"É lá que acontece grande parte dos lançamentos globais de tecnologia e patentes. Na última edição, 63% dos produtos apresentados já incorporavam novas tecnologias e 48% traziam atualizações funcionais. Você está literalmente vendo o futuro do mercado acontecer na sua frente", analisa Lopes.
Para o CEO da Global RPX, a feira é apenas o início do processo. "Estar na Canton Fair abre uma janela enorme de possibilidades, mas transformar isso em negócio real exige muito mais do que caminhar pelos pavilhões. É preciso análise de mercado, identificação e desenvolvimento de fornecedores, processo de importação e criação de marca própria. A feira é onde tudo começa, e ter alguém que conhece o terreno e sabe onde estão as oportunidades reais faz toda a diferença", conclui.
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