O golpe do "Pix errado", fraude em que criminosos utilizam transferências indevidas e pedidos falsos de devolução para obter dinheiro das vítimas, tem ganhado força no Brasil. A modalidade explora o Mecanismo Especial de Devolução (MED), ferramenta criada pelo Banco Central (BC) para combater fraudes, mas que vem sendo manipulada para legitimar golpes e ampliar prejuízos financeiros.
O crescimento das fraudes envolvendo Pix acompanha a consolidação do sistema como principal meio de pagamento no país. Segundo o estudo "Golpes com Pix" realizado pela Silverguard em 2025 esse tipo de fraude aumentou 21% no Brasil, com perdas médias de R$ 2.540 por vítima. Entre idosos, o prejuízo é quase o dobro: R$ 4.800. Em paralelo, entre 2023 e 2024, os pedidos de devolução relacionados ao Mecanismo Especial de Devolução (MED) também tiveram um crescimento substancial, saltando de 2,5 milhões para quase 5 milhões de ocorrências.
"O sucesso desse golpe está menos ligado à tecnologia e mais à engenharia social. Os criminosos criam uma situação de urgência para manipular a vítima emocionalmente e convencê-la a agir de forma rápida, sem verificar os procedimentos corretos dentro do aplicativo bancário oficial", afirma Thales Santos, especialista em segurança da informação da ESET Brasil.
Como funciona o golpe do Pix errado
A fraude normalmente começa quando a vítima recebe um Pix legítimo em sua conta. Pouco tempo depois, o suposto remetente entra em contato, alegando ter feito a transferência por engano e solicita a devolução para outra chave Pix, o que motiva a vítima a realizar uma nova transferência manual.
Na sequência, o criminoso aciona o MED junto ao banco, alegando ter sido vítima de fraude na primeira transação. Como o sistema identifica uma entrada seguida de uma saída rápida de recursos, a contestação pode ganhar força e resultar no bloqueio ou retirada do valor originalmente recebido pela vítima. O prejuízo acaba sendo duplo.
Criado pelo Banco Central, o MED foi desenvolvido para facilitar o bloqueio e a devolução de valores em casos de golpes e falhas operacionais. Desde fevereiro de 2026, com a implementação do MED 2.0, o sistema passou a rastrear o caminho do dinheiro entre diferentes contas, ampliando a capacidade de bloqueio de recursos suspeitos.
O especialista da ESET Brasil reforça que a devolução de valores recebidos indevidamente nunca deve ser feita por uma nova transferência manual. O procedimento seguro é utilizar exclusivamente a função "Devolver", disponível no extrato do aplicativo bancário, já que ela vincula o estorno à transação original e comprova oficialmente a correção do erro.
Casos recentes mostram o impacto desse tipo de fraude. Um dos episódios de maior repercussão envolveu um professor do Paraná que perdeu R$ 700 após devolver manualmente um Pix recebido por engano. Depois da transferência, o criminoso acionou o MED e conseguiu o estorno da operação original, causando um prejuízo total de R$ 1.400 à vítima.
"É necessário que o usuário entenda que qualquer devolução fora dos canais oficiais pode ser interpretada pelo sistema bancário como uma transação voluntária. O cuidado com o procedimento padrão é o que protege a vítima", acentua Thales.
Além disso, segundo o especialista, usuários devem desconfiar de contatos que envolvam pressão emocional, urgência ou envio de comprovantes de Pix agendado. Registrar o ocorrido junto ao banco e guardar evidências das conversas também são medidas recomendadas em caso de suspeita de fraude.
Caso a vítima já tenha realizado a transferência manual para a chave indicada pelo criminoso, a recomendação é agir rapidamente para aumentar as chances de recuperação dos valores e evitar novos prejuízos.
Abaixo é possível conferir as orientações do especialista em segurança digital da ESET:
Seguir esses procedimentos aumenta a probabilidade de reversão da fraude, embora não haja garantia de ressarcimento. A recuperação depende da rapidez da reação da vítima e da disponibilidade dos recursos na conta do fraudador no momento do bloqueio.
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