Para muitas empresas brasileiras, a sucessão familiar ainda é um dos maiores desafios para a longevidade nos negócios. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 90% dos empreendimentos no país têm perfil familiar e boa parte deles está concentrada no setor de varejo. Apesar da relevância econômica, poucas dessas empresas conseguem atravessar gerações com estabilidade.
De acordo com o Sebrae, apenas 30% das empresas familiares chegam à segunda geração e apenas 12% alcançam a terceira. Entre os principais fatores estão falhas de governança, ausência de regras claras de gestão e conflitos internos.
No setor de combustíveis, também marcado pela presença de gestões familiares, a organização da sucessão se torna decisiva para garantir a continuidade do negócio. Na distribuidora ALE Combustíveis, que conta com uma rede de cerca de 1.500 postos no país, alguns empresários mostram que, quando o processo de sucessão é conduzido com planejamento e aprendizado gradual, a transição pode se transformar em uma vantagem competitiva.
Um exemplo desse processo é o Posto Bela Aliança, localizado em Rio do Sul (SC). Fundado em 1998 pelo empresário Walter Dórico Depiné, o empreendimento nasceu do zero e se consolidou ao longo dos anos.
A sucessão começou a ser construída ainda quando o fundador estava à frente do negócio. O filho dele, Diego Depiné, dedicou anos aprendendo cada etapa da operação antes de assumir a gestão. "Passei por todas as áreas do posto, desde a pista, lavação e troca de óleo até o trabalho no escritório. Só depois dessa vivência completa é que comecei a participar da gestão do negócio", conta Diego.
O processo aconteceu de forma gradual e, em 2010, ele já estava à frente da operação sob a supervisão do pai. Dois anos depois, com o falecimento de Walter, Diego assumiu integralmente a gestão do posto. Apesar da responsabilidade, o filho afirma que a preparação construída ao longo dos anos foi fundamental para a continuidade da empresa.
"Meu pai sempre foi muito visionário e pensava no futuro. Ele foi transferindo as responsabilidades aos poucos. Quando precisei assumir, já conhecia profundamente o negócio e sabia que carregava os valores que ele construiu", afirma. Hoje, além de manter o legado familiar, o posto acumula conquistas, incluindo duas premiações como Melhor Posto ALE do Brasil.
O processo de sucessão do Posto Bela Aliança foi acompanhado pelo consultor da ALE Combustíveis Silvio Nascimento, que conheceu a empresa ainda na gestão do fundador e hoje segue atendendo o negócio comandado pelo filho. "Desde jovem, Diego estava presente no posto, acompanhando o pai no dia a dia. Isso fez toda a diferença. O sucessor precisa conhecer o negócio de dentro para fora, desde abastecer um carro até entender a gestão", explica.
Na avaliação do consultor, um dos fatores que contribuem para uma sucessão bem-sucedida é a construção de confiança entre família e empresa ao longo do tempo. "A relação que Walter tinha com a companhia foi sendo naturalmente transmitida para Diego. Esse vínculo de confiança ajuda muito no momento de transição", afirma Silvio.
Sucessão e crescimento
Outro exemplo de sucessão na rede de revendedores vem da Rede Toniá, na Serra Catarinense. O negócio começou em 1997, quando o empresário José Antônio Laurindo, conhecido na região como Tonico, inaugurou o primeiro posto da família. Desde cedo, os filhos cresceram dentro do ambiente do negócio e foram aprendendo a operação no dia a dia. "Os meus três filhos se criaram dentro do posto. Foi ali que aprenderam o trabalho e tomaram gosto pelo negócio", conta o fundador.
Com o passar dos anos, segundo Tonico, a sucessão foi ocorrendo naturalmente e hoje, com a expansão da rede, ele conta com os filhos Marlon, Ewerton e Elton Laurindo; cada um administra um posto, enquanto o pai continua participando da gestão estratégica. De acordo com Marlon Laurindo, crescer dentro da empresa ajudou a tornar a transição mais natural. "Desde os 14 anos, eu acompanhava meu pai na operação. Quando assumi a gestão, o compromisso e a responsabilidade ficaram maiores, mas eu já conhecia todos os desafios do negócio", conta Marlon.
Ele considera que a transparência e o trabalho conjunto entre os membros da família foram fundamentais para evitar conflitos. "Cada irmão opera um posto e nosso pai continua participando das decisão. O mais importante é manter a família unida e trabalhar com clareza nas responsabilidades."
De acordo com o diretor comercial da ALE Combustíveis, Renato Rocha, processos como do Posto Bela Aliança e da Rede Toniá são exemplos de que a continuidade de empresas familiares depende tanto da preparação da nova geração quanto de relações sólidas com parceiros de negócio. Ele conta que a distribuidora acompanha diversos casos de sucessão dentro da rede e busca apoiar os revendedores nesse momento de mudança. "O setor de combustíveis é historicamente formado por empresas familiares. Quando existe planejamento, preparação e transparência na gestão, a sucessão se torna um processo natural e fortalece o negócio", afirma.
O executivo destaca que a ALE mantém proximidade com os revendedores durante todas as etapas do negócio. "Nosso papel é apoiar o revendedor com estrutura, relacionamento e troca de experiências. Muitas vezes, acompanhamos essas empresas por décadas e vemos gerações diferentes assumindo a operação com profissionalismo e visão de futuro."
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