O mercado de consórcios no Brasil tem registrado crescimento consistente nos últimos anos, consolidando-se como alternativa relevante ao crédito tradicional em um cenário econômico marcado por juros elevados e maior cautela financeira por parte das famílias. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) indicam que o setor ultrapassou a marca de 12 milhões de participantes ativos, além de manter expansão contínua no volume de créditos comercializados e nas vendas de cotas em diferentes segmentos.
O crescimento do setor acompanha mudanças no comportamento financeiro do consumidor brasileiro, com maior valorização de planejamento e previsibilidade nas decisões de médio e longo prazo. Tradicionalmente associado à aquisição parcelada de bens como veículos e imóveis, o consórcio tem sido utilizado de forma mais recorrente como alternativa de crédito planejado, especialmente em contextos de maior cautela financeira e busca por organização das finanças pessoais.
Novo perfil do consumidor e decisão mais analítica
A consolidação desse movimento pode ser observada em paralelo ao aumento do acesso à informação digital. A presença de simuladores, conteúdos educativos e canais de pesquisa online passou a compor a jornada informativa do consumidor em decisões relacionadas a produtos financeiros, especialmente aqueles que envolvem planejamento de médio e longo prazo.
Segundo Gabriel Esteves, especialista em crescimento de operações no setor financeiro e fundador da Maav Digital, essa mudança altera a dinâmica comercial das empresas. "O cliente chega ao atendimento mais informado, com repertório construído a partir de pesquisas e conteúdos. Isso exige uma abordagem mais consultiva e estratégica".
Digitalização e transformação dos canais de aquisição
Paralelamente ao crescimento do crédito planejado, o sistema financeiro brasileiro tem passado por um processo acelerado de digitalização. O Relatório de Economia Bancária da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) aponta que mais de 70% das transações bancárias no país já ocorrem por canais digitais, com predominância do mobile banking.
"Inserido nesse ambiente digital, o mercado de consórcios também passou a incorporar novos canais de aquisição e relacionamento. A geração de demanda, antes baseada majoritariamente em indicações e contato presencial, passou a ocorrer com maior frequência em ambientes online, como mecanismos de busca, redes sociais e conteúdos especializados. Essa migração amplia o alcance das operações, mas também eleva a competitividade e exige maior estrutura comercial e comunicação orientada por dados".
Jornada mais longa e maior necessidade de informação
Diferentemente de produtos financeiros de decisão rápida, o consórcio envolve planejamento e confiança, tornando a jornada de aquisição mais longa e informativa. O consumidor tende a percorrer etapas de pesquisa, comparação e análise antes da contratação.
De acordo com Esteves, o ambiente digital não encurtou a jornada, mas elevou o nível de análise do consumidor. "O processo ficou mais qualificado. O cliente busca entender o funcionamento, riscos e vantagens antes de avançar, o que exige maior preparo das equipes comerciais".
Esse comportamento reforça a necessidade de integração entre marketing e vendas, garantindo continuidade na comunicação ao longo do funil comercial.
Aumento da competitividade e busca por previsibilidade comercial
Com a consolidação dos canais digitais no setor financeiro, cresce também a concorrência pela atenção do consumidor. Esse cenário contribui para a elevação do custo de aquisição de clientes e torna essencial a mensuração constante de resultados comerciais.
Relatórios de transformação digital indicam que empresas têm intensificado o uso de dados e métricas para otimizar a geração de demanda e aumentar a previsibilidade de resultados. Indicadores como taxa de conversão, custo por lead e tempo de decisão passam a orientar estratégias comerciais, substituindo modelos baseados apenas em volume de contatos.
Profissionalização das operações e uso estratégico de dados
A incorporação de tecnologia à rotina comercial representa uma das principais mudanças estruturais do setor. O uso de CRM, automação e análise de métricas permite maior organização do funil, acompanhamento de interações e melhor aproveitamento das oportunidades geradas.
"O setor deixa de operar apenas por volume e passa a operar por inteligência comercial".
Segundo ele, a integração entre marketing e vendas, aliada ao monitoramento de indicadores, contribui para maior eficiência e previsibilidade das operações.
Desafios e novo padrão competitivo
Apesar dos avanços na digitalização do setor financeiro, o mercado de consórcios ainda apresenta desafios relacionados à adaptação tecnológica, estrutura digital e qualificação da demanda em ambientes online.
Segundo Esteves, o aumento do volume de leads digitais exige maior organização dos processos comerciais. "O crescimento da demanda em canais digitais nem sempre vem acompanhado de qualidade proporcional das oportunidades, o que torna essencial o uso de dados, critérios de qualificação e integração entre marketing e vendas ao longo do funil".
Para o especialista, a ampliação dos canais online também altera a dinâmica da jornada do consumidor. "O ambiente digital passa a concentrar etapas iniciais de pesquisa, comparação e entendimento do produto, o que exige abordagens comerciais mais consultivas e estruturadas".
Na avaliação de Esteves, o avanço da digitalização, aliado ao maior acesso à informação financeira, contribui para a evolução gradual do setor. "Empresas que estruturam processos, utilizam dados e acompanham indicadores tendem a se adaptar com maior consistência às mudanças do ambiente digital".
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