O aumento dos custos da saúde suplementar e as restrições orçamentárias das famílias têm impulsionado o crescimento do segmento de clínicas médicas populares no Brasil. O movimento ocorre em um cenário de reorganização do consumo de serviços médicos no período pós-pandemia, marcado por maior sensibilidade ao preço e busca por atendimento particular de menor custo e mais rápido.
De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o índice máximo autorizado para o reajuste das mensalidades de planos individuais e familiares no ciclo entre maio de 2025 e abril de 2026 foi de 6,06%, conforme divulgado pela agência reguladora.
Além disso, o índice de Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH/IESS), calculado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, registra variações superiores à inflação geral da economia e reflete a pressão contínua dos custos assistenciais sobre as operadoras de planos de saúde.
De acordo com Luiz Augusto Carneiro, superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) — organização responsável pelo cálculo do índice Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH) — "a inflação médica no Brasil tem se comportado de forma superior à inflação geral da economia", diz Carneiro.
Em todo o mundo, os gastos com saúde crescem acima da inflação devido ao aumento da longevidade e à incorporação de novas tecnologias, que são mais caras. No Brasil, esse fenômeno também está presente, com o índice VCMH repetidamente registrado acima de dois dígitos, enquanto a inflação geral está em patamares inferiores.
Paralelamente, os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2019), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 28,5% da população brasileira tinham algum plano de saúde médico ou odontológico, e que a grande maioria da população permanece fora da cobertura suplementar.
O conjunto desses fatores tem ampliado a procura por modelos alternativos de atendimento. As clínicas populares operam com pagamento direto por consulta ou exame, sem intermediação de operadoras, oferecendo especialidades médicas, exames laboratoriais e de imagem, tratamentos e protocolos e serviços complementares.
Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o segmento de saúde mantém desempenho acima da média nacional dentro do sistema de franquias, registrando aumento de 13,1% no terceiro trimestre de 2025 quando comparado a 2024.
A expansão ocorre também em função da interiorização dos serviços médicos privados e da demanda por atendimento mais ágil, especialmente em consultas eletivas e exames de menor complexidade.
Entre as redes que atuam nesse modelo de franquias está a Atend Já, fundada em 2016. A empresa iniciou sua expansão via franchising em 2018 e atualmente possui mais de 80 unidades em operação no país.
Em 2025, a rede registrou crescimento de 92% em comparação com o ano anterior, com faturamento aproximado de R$ 25 milhões. Para 2026, a projeção é atingir R$ 35 milhões, acompanhando o plano de ampliação para 150 unidades franqueadas e consolidação da presença em novos mercados regionais.
De acordo com Rafael Grizzo, CEO da Atend Já e especialista em gestão e marketing para clínicas, o avanço das clínicas populares está associado a fatores estruturais do mercado brasileiro.
"O crescimento desse modelo está diretamente relacionado aos reajustes recorrentes autorizados nos planos de saúde, ao aumento da informalidade no mercado de trabalho — que reduz o acesso a planos empresariais — e à consolidação do pagamento (pay-per-use) como alternativa economicamente viável para parte da população", afirma Grizzo.
As clínicas populares consolidam-se ao oferecer consultas, exames e procedimentos a preços acessíveis, sem a necessidade de mensalidades, atendendo à demanda por rapidez e custo-benefício.
"Esse modelo de negócios preenche a lacuna entre o sistema público (SUS), sobrecarregado, e os planos de saúde tradicionais, que se tornaram onerosos para a população de classe média e baixa", complementa Grizzo.
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