O avanço acelerado da inteligência artificial tem provocado fascínio, mas também medo. Trabalhadores temem perder seus empregos, empresas receiam ficar para trás e governos tentam calcular os impactos de uma tecnologia que parece avançar em uma velocidade difícil de acompanhar. A sensação é de que a IA poderá transformar quase tudo de uma hora para outra.
Por trás da rapidez percebida na tela, no entanto, existe uma infraestrutura física que não se expande na mesma velocidade. Chips, servidores, sistemas de refrigeração, transformadores, subestações, linhas de transmissão e data centers dependem de investimentos bilionários, licenciamento, obras e, principalmente, energia.
Esses limites não significam que a transformação provocada pela inteligência artificial deixará de acontecer. Indicam, porém, que ela poderá avançar de maneira mais lenta, desigual e sujeita a interrupções do que sugerem algumas das previsões mais alarmistas e também algumas das projeções mais otimistas de Wall Street. As grandes empresas de tecnologia anunciam investimentos de centenas de bilhões de dólares, enquanto suas ações incorporam expectativas de crescimento acelerado, ganhos de produtividade e lucros futuros elevados. O problema é que a infraestrutura elétrica necessária para sustentar essa expansão não cresce no mesmo ritmo.
Para entender como a escassez de energia pode afetar a velocidade de adoção da inteligência artificial e o preço das empresas de tecnologia, o Dinheiro Terapia conversou com Otávio Fakhoury, especialista em mercado financeiro, administrador formado pela Fundação Getulio Vargas e investidor. Fakhoury trabalhou em importantes mesas de renda fixa de instituições financeiras no Brasil e no exterior. Na entrevista, ele explica por que o gargalo energético não invalida a transformação provocada pela IA, mas pode desacelerar sua expansão e obrigar Wall Street a rever expectativas já incorporadas ao preço das ações.
Dinheiro Terapia: Por que a energia se tornou uma questão tão importante para o avanço da inteligência artificial?
Otávio Fakhoury: Porque a IA é digital apenas na interface. Sua base é profundamente industrial. Por trás de cada resposta produzida por um modelo existem data centers, chips de altíssimo custo, servidores, sistemas de refrigeração, redes de transmissão e uma demanda enorme por eletricidade. A chamada "nuvem" não é algo abstrato. É uma infraestrutura física, gigantesca e muito cara. Sem energia, o data center não liga, o chip fica inativo, o serviço deixa de ser entregue e a receita não aparece.
Dinheiro Terapia: Muitas pessoas temem que a IA transforme o mercado de trabalho e a economia quase imediatamente. Os gargalos de infraestrutura podem fazer com que essa mudança aconteça mais devagar?
Otávio Fakhoury: Sim. Existe uma diferença importante entre a velocidade de evolução do software e a velocidade de expansão da infraestrutura necessária para colocá-lo em funcionamento em grande escala. Um modelo de IA pode ser atualizado em semanas. Um data center pode levar dois ou três anos para ficar pronto. Uma nova linha de transmissão pode demorar de quatro a oito anos.
Os prazos de espera por equipamentos críticos, como transformadores e cabos, também aumentaram. Isso não elimina o impacto da inteligência artificial sobre profissões, empresas e modelos de negócio. Mas indica que a transformação provavelmente não ocorrerá de maneira instantânea, homogênea ou sem obstáculos. Algumas companhias e regiões terão acesso à infraestrutura antes de outras. Certas atividades serão automatizadas rapidamente, enquanto outras levarão mais tempo. A expansão da IA pode ser muito profunda, mas não será necessariamente tão linear nem tão veloz quanto algumas narrativas fazem parecer.
Dinheiro Terapia: O consumo de energia dos data centers já é significativo?
Otávio Fakhoury: Os dados mostram que sim. Segundo a Agência Internacional de Energia, os data centers consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora de eletricidade em 2024, cerca de 1,5% do consumo mundial. No cenário-base da agência, esse volume deve mais que dobrar até 2030, chegando a aproximadamente 945 terawatts-hora, um consumo ligeiramente superior ao de todo o Japão atualmente.
Um data center típico voltado à inteligência artificial pode consumir tanta energia quanto 100 mil residências. Os maiores projetos em construção poderão consumir até 20 vezes mais. A própria Agência Internacional de Energia estima que aproximadamente 20% dos projetos planejados de data centers podem sofrer atrasos caso os gargalos das redes elétricas não sejam resolvidos.
Dinheiro Terapia: Como um atraso na infraestrutura pode afetar o preço das ações das empresas ligadas à IA?
Otávio Fakhoury: O mercado paga hoje pelos lucros que acredita que essas empresas terão no futuro. Quando uma ação negocia com múltiplos elevados, o investidor aceita pagar caro porque espera um crescimento muito maior no futuro. Se um data center que deveria começar a gerar receita em 2028 ou 2029 atrasa por falta de energia, a receita também atrasa.
Ao mesmo tempo, os investimentos continuam crescendo. Isso pressiona as margens, reduz a expectativa de lucro e pode provocar uma revisão no preço das ações. O risco não é apenas a eletricidade ficar mais cara. O problema mais grave é ela simplesmente não estar disponível no local, na escala e no prazo em que o projeto precisa começar a funcionar. Para as grandes empresas de tecnologia, o risco é investir demais antes que a monetização apareça. Para as fabricantes de chips, é que a demanda futura já tenha sido excessivamente antecipada nas cotações. Para as operadoras de data centers, é construir instalações e não conseguir receber energia. Quando o preço de uma ação exige uma execução quase perfeita, qualquer atraso se transforma em uma decepção relevante.
Dinheiro Terapia: Esse problema já pode ser observado nos Estados Unidos?
Otávio Fakhoury: Sim. Um estudo do Lawrence Berkeley National Laboratory estimou que os data centers já representam pouco mais de 4% do consumo de eletricidade dos Estados Unidos. Dependendo do ritmo de expansão da IA, essa participação pode chegar a 12% em 2028. E isso já acendeu o sinal vermelho por lá.
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