A tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos subiu de patamar. Em 27 de julho, o governo brasileiro acionou o sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio para questionar duas medidas norte-americanas que elevaram em 37,5% as tarifas sobre parte dos produtos brasileiros.
Semanas antes, outra decisão de Washington havia mostrado que os efeitos desse ambiente podem alcançar também os serviços digitais. Em 12 de junho, a Anthropic suspendeu o acesso de estrangeiros aos modelos de inteligência artificial Fable 5 e Mythos 5 após uma ordem do governo dos Estados Unidos fundamentada na segurança nacional. O acesso global foi restabelecido em 1º de julho, mas o episódio expôs a capacidade de uma decisão governamental interromper, de forma imediata, uma tecnologia já incorporada às rotinas corporativas.
O novo episódio do Podcast DoTheMATH analisa como a geopolítica passou a interferir nas decisões sobre fornecedores, dados e infraestrutura. O economista Flávio Basílio, diretor executivo da EloPar e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa, resume a mudança na lógica das compras corporativas: "Não vale mais o just in time. Vale agora o just in case."
Alianças entram na análise de fornecedores
A tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos entrou em vigor em 22 de julho, após investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O processo avaliou práticas brasileiras relacionadas a pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. Outra medida acrescentou 12,5% às tarifas.
O Itamaraty classificou as medidas como unilaterais e incompatíveis com as regras multilaterais. O pedido de consultas apresentado à OMC abre a primeira etapa formal do contencioso.
Para Basílio, o cenário inclui uma nova variável na seleção de parceiros: a relação política entre os países. "A variável não está sendo mais se o preço é bom, se o preço é ruim. Está em quem é meu aliado ou quem não é meu aliado", afirma no podcast.
O entrevistado observa que esse tipo de condicionamento já faz parte da área de defesa. Como exemplo, cita as barreiras enfrentadas pelo programa brasileiro de submarino com propulsão nuclear na importação de insumos estratégicos. Na avaliação de Basílio, empresas de outros setores também precisam considerar a possibilidade de interrupções decorrentes de decisões externas.
Nuvem e dados ampliam o risco jurídico
A dependência de infraestrutura estrangeira já produz efeitos regulatórios no Brasil. Em junho, o Tribunal de Contas da União recomendou que o Serpro revisasse cláusulas de um contrato com a Amazon Web Services. O tribunal identificou risco de acesso estrangeiro a dados públicos hospedados por uma empresa sujeita à jurisdição norte-americana.
A discussão envolve o CLOUD Act, lei dos Estados Unidos que permite às autoridades do país requisitar dados sob controle de provedores norte-americanos, inclusive quando armazenados no exterior. Para as empresas, residência de dados, jurisdição do fornecedor e redundância geográfica passam a integrar a análise contratual.
O Brasil também recebe investimentos em infraestrutura de IA. Em junho, a Elea Data Centers anunciou um aporte de US$ 550 milhões na plataforma que inclui o projeto Rio AI City, na zona oeste do Rio de Janeiro. A estrutura depende de equipamentos importados, sobretudo processadores de origem norte-americana, e continua sujeita a regras de exportação definidas fora do país.
O que muda para as empresas
O cenário ainda tem limites. As tarifas da Seção 301 atingem bens, sem incluir software e serviços de nuvem. A restrição norte-americana alcançou modelos específicos da Anthropic e foi retirada posteriormente. Mesmo assim, os dois episódios mostram que decisões comerciais, diplomáticas e de segurança podem afetar custos, acesso a ferramentas e continuidade operacional.
No curto prazo, a resposta passa pelo mapeamento de fornecedores críticos, pela revisão de cláusulas sobre jurisdição e acesso a dados, pela criação de redundâncias e pela definição de alternativas para serviços essenciais. Basílio considera pouco factível substituir integralmente sistemas operacionais e plataformas críticas, pois a mudança envolve reconstruir processos. Por isso, o planejamento deve priorizar os pontos de maior impacto para a operação.
A análise completa está no episódio "Geopolítica e tecnologia: a análise de Flávio Basílio", do Podcast DoTheMATH, apresentado por Marcel Ghiraldini e Fabiana Amaral. A conversa está disponível no Spotify e no YouTube.
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