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Fusão Afya-Yduqs pode exigir venda de cursos de medicina

Operação soma cerca de 5,9 mil vagas anuais e depende do Cade. Joel Freire, diretor-executivo da InMEC, analisa como a concentração em três cidades e o fim do edital do MEC para novos cursos podem levar faculdades de medicina ao mercado de aquisições

16/10/2026 17h13
Por: Redação Fonte: Agência Dino
Imagem gerada por IA
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A fusão entre Afya e Yduqs, assinada em 23 de setembro de 2026, dá origem ao maior grupo de ensino médico do Brasil e agora aguarda a análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). De acordo com o fato relevante divulgado ao mercado, a companhia combinada reunirá cerca de 38 mil estudantes de medicina e 5.888 vagas anuais autorizadas no curso, sendo 3.768 da Afya e 2.120 da Yduqs. O volume corresponde a 17% das vagas privadas de medicina no país, segundo o InvestNews.

Em escala nacional, a participação não configura concentração elevada. Pelos cálculos do JPMorgan, a Afya detém cerca de 11% das vagas privadas de medicina e a Yduqs, 6%. O foco da autoridade antitruste, no entanto, tende a recair sobre os mercados locais onde as duas redes mantêm cursos na mesma cidade. Em Ji-Paraná, em Rondônia, o grupo somaria 100% das vagas privadas; em Teresina, 53%; e no Rio de Janeiro, 48%. Os analistas do banco observam que essas fatias superam o patamar de 20%, que o Cade costuma tratar como de baixo impacto em sobreposições horizontais.

"Quando há sobreposição relevante em mercados locais, o Cade pode condicionar a aprovação à venda de unidades. No caso da medicina, isso significa colocar à venda um tipo de ativo que raramente chega ao mercado", afirma Joel Freire, diretor-executivo da InMEC, empresa especializada em fusões e aquisições de instituições de ensino.

Relatórios de bancos citados pela Bloomberg Línea indicam que as três praças respondem por cerca de 15% do total de vagas combinadas e podem demandar desinvestimentos, o que limita o efeito de eventuais vendas sobre o porte da nova empresa. O órgão tem até 330 dias para decidir. O setor conhece esse tipo de escrutínio: em 2017, o Cade reprovou a fusão entre Kroton, atual Cogna, e Estácio, hoje parte da Yduqs, após identificar falta de rivalidade suficiente no ensino presencial em oito cidades.

Oferta restrita de novos cursos

Uma eventual venda de faculdades ocorreria em um cenário de expansão limitada. Por meio da Portaria MEC nº 129, de 9 de fevereiro de 2026, o Ministério da Educação (MEC) revogou o edital que previa a autorização de até 95 novos cursos de medicina em instituições privadas. Na fundamentação, a pasta apontou que, entre 2024 e fevereiro de 2026, decisões judiciais e processos administrativos resultaram em 5.382 novas vagas, número próximo ao projetado pelo próprio edital.

"Com a revogação do edital, a aquisição de cursos em funcionamento passou a ser uma das principais formas de um grupo crescer em medicina. Isso aumenta a disputa por cada vaga autorizada", explica Freire.

Operações recentes ilustram o valor atribuído a esses ativos. Em 2024, a Afya adquiriu o grupo Unidom, em Salvador, com 300 vagas de medicina, em transação de cerca de R$ 660 milhões, parte dela condicionada à regularização das vagas no MEC. Em julho de 2026, a Clariens Educação, controlada pela Mubadala Capital, de Abu Dhabi, fechou a compra da Universidade Vila Velha (UVV), no Espírito Santo, que mantém curso de medicina, na sexta aquisição do grupo desde 2021. No início de outubro, foi noticiado que o fundo soberano de Cingapura, GIC, estuda reduzir ou encerrar sua fatia de cerca de 37% no grupo Cruzeiro do Sul, avaliado em R$ 2,2 bilhões.

"Grupos regionais e fundos que já atuam no setor tendem a acompanhar esse processo de perto. Um desinvestimento determinado pelo Cade costuma ter prazo definido, o que altera a dinâmica da negociação entre vendedor e comprador", avalia o diretor-executivo da InMEC.

Desempenho acadêmico no cálculo

A qualidade da formação também entrou no cálculo de valor desses cursos. No Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), com resultados apresentados pelo MEC em 19 de janeiro de 2026, 99 dos 304 cursos do sistema federal de ensino ficaram nos conceitos 1 e 2, faixas em que menos de 60% dos concluintes alcançaram proficiência. Essas graduações ficaram sujeitas a processo de supervisão, com medidas que vão da redução de vagas à suspensão do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e do ingresso de novos alunos.

"O comprador vai olhar além do número de vagas autorizadas. O resultado no Enamed, a situação regulatória do curso e a estrutura de campos de prática passaram a pesar diretamente no valor da transação", completa Freire.

Além do aval do Cade, a conclusão da fusão depende da aprovação dos acionistas das duas companhias e de outras condições previstas em contrato, com prazo-limite fixado em 31 de março de 2028. Até lá, a combinação entre concentração local, ausência de novos editais e critérios de qualidade mais rigorosos deve orientar tanto as exigências do órgão antitruste quanto o interesse de potenciais compradores por cursos de medicina já autorizados.

Para mais informações sobre fusões e aquisições no ensino superior, basta acessar: https://inmec.com.br/fusoes-e-aquisicoes

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