A nova edição da Sondagem Omie das Pequenas Empresas mapeou um cenário de cautela no setor produtivo brasileiro. Pressionadas pela manutenção da taxa Selic em 14% ao ano e pelo prazo iminente de adequação à Reforma Tributária, as pequenas e médias empresas (PMEs) adotam uma postura defensiva. O levantamento mostra que 54% dos gestores projetam um impacto negativo da macroeconomia em seus negócios nos próximos seis meses, enquanto 79% das empresas optantes pelo Simples Nacional chegam a setembro sem definir a migração para o Regime Híbrido.
"A combinação de juros mantidos em patamares elevados com a falta de previsibilidade fiscal coloca a margem de caixa das pequenas e médias empresas sob extrema pressão. Adiar a decisão tributária até o limite não é apenas um risco burocrático, mas uma vulnerabilidade comercial direta. Em um ambiente de crédito caro, a inércia no planejamento fiscal compromete a competitividade exatamente quando o negócio precisa de eficiência operacional", analisa Felipe Beraldi, economista da Omie.
As barreiras estruturais ganharam contornos severos na percepção dos gestores. As taxas de juros elevadas consolidaram-se como o obstáculo central, citadas por 59% dos respondentes, um avanço de 10 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. Em seguida, figuram os altos custos com mão de obra (44%). Fatores como fraca demanda, falta de capital de giro e elevada competitividade no segmento também afetam o setor, empatados com 31% cada. Apesar desse cenário, o segmento demonstra resiliência operacional: 63% das PMEs pretendem realizar contratações nos próximos meses para suprir reposição ou expansão, e 50% das empresas preveem ao menos um aumento modesto de receita no segundo semestre.
Somado ao ambiente econômico desafiador, a Reforma Tributária impõe um teste prático e imediato de sobrevivência. A pesquisa revela que 72% das PMEs não têm domínio completo sobre as novas regras fiscais, evidenciando um desconhecimento mais amplo sobre a transição. Apenas 19% dos empresários se sentem totalmente preparados para o novo ambiente de negócios, o que gera insegurança em um momento decisivo, no qual o improviso pode resultar em estrangulamento financeiro.
O desafio do Simples Híbrido e a reprecificação
O cronograma oficial estabelece que as empresas têm até 30 de setembro para escolher entre o Simples "Tradicional", que mantém a arrecadação unificada, ou o "Híbrido", com recolhimento separado de IBS e CBS, válido para o primeiro semestre de 2027. Contudo, apenas 21% já tomaram uma decisão, divididos entre o modelo híbrido (11%) e o tradicional (10%). A ausência de manifestação resulta na manutenção automática no modelo unificado, o que pode comprometer a competitividade de negócios B2B, uma vez que clientes do regime regular terão restrições para aproveitar o crédito tributário integral nas operações com fornecedores do Simples.
A percepção desse risco já induz a reorganizações táticas nas companhias. Para proteger as margens operacionais, 63% das PMEs pretendem revisar suas políticas de preços devido à Reforma Tributária. Adicionalmente, 32% consideram alterar a estrutura societária ou o regime tributário, e 31% planejam reavaliar a negociação de contratos comerciais. A indefinição atual, impulsionada pelo fato de que 32% dos respondentes ainda não avaliaram os impactos dessa escolha no caixa e 31% aguardam maior clareza regulatória, eleva o risco de perda de espaço na cadeia de valor.
O novo papel da contabilidade
Diante do afunilamento dos prazos, a dependência em relação ao suporte técnico atingiu níveis elevados. Para 73% dos gestores, o papel do contador passará por uma transformação estratégica implacável, distanciando-se da busca pelo mero cumprimento de obrigações fiscais rotineiras. As entregas mais demandadas ao setor contábil neste momento de transição são a orientação estratégica sobre o regime (71%) e a simulação de impactos financeiros (66%).
No entanto, há um descompasso claro entre a expectativa e a necessidade real de mercado. Embora a revisão de preços seja a mudança estratégica mais citada pelas empresas (63%), apenas 17% dos respondentes esperam o apoio do contador para a revisão de preços, contratos e processos. Esse cenário representa uma oportunidade para os profissionais contábeis anteciparem a discussão técnica sobre alíquotas e o impacto do crédito tributário na formação de preço, auxiliando os empreendedores em uma decisão que afeta diretamente a margem nas relações comerciais.
Metodologia - A Sondagem Omie foi realizada em agosto de 2026 por meio de aplicação de questionário online junto a 410 empresários e gestores de pequenas e médias empresas (exceto MEIs) em todo o Brasil. O levantamento considera uma população de referência de cerca de 13 milhões de empresas não-MEI registradas no país, atingindo um nível de confiança de 95% e margem de erro de 5 pontos percentuais.
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