Economia Negócios
Imprevisibilidade no fluxo de caixa eleva o risco de crédito
Empresas podem enfrentar fragilidade financeira mesmo com aumento de receita; digitalização e duplicata escritural trazem nova lógica para análise ...
01/06/2026 16h53
Por: Redação Fonte: Agência Dino

O mercado de crédito corporativo vive uma mudança silenciosa, mas profunda. A lógica tradicional de análise de crédito, baseada em balanços e indicadores estáticos, já não explica a realidade de muitas empresas, especialmente porque operam em cadeias produtivas, o que amplia a complexidade, mas nos permite tornar as análises mais fiáveis e reais com a aplicação de inteligência de dados. Nesse cenário, a previsibilidade do fluxo de caixa passou a ter peso semelhante ao da inadimplência na definição do risco financeiro.

Mais do que avaliar patrimônio ou histórico financeiro, instituições e empresas passaram a observar a capacidade real de geração e circulação de caixa ao longo das operações. A dinâmica das relações entre fornecedores, compradores e parceiros comerciais passou a influenciar diretamente a liquidez, o capital de giro e o custo financeiro.

Dados do Panorama do Contas a Pagar, desenvolvido pela Qive, mostram que 77% das operações B2B no Brasil são realizadas a prazo. Quando analisadas as operações via boletos e duplicatas, cerca de 51,2% do volume total de documentos emitidos foi liquidado em mais de 15 dias. Embora comum no ambiente corporativo, esse intervalo pode representar risco relevante quando há atrasos recorrentes ou concentração de recebíveis em poucos clientes.

Apesar do avanço da digitalização, grande parte das análises de crédito ainda se baseia em indicadores estáticos e retrospectivos, enquanto o risco financeiro se forma diariamente no fluxo das operações. Em um ambiente de juros elevados e maior inadimplência, atrasos e oscilações nos recebimentos passaram a impactar diretamente a saúde financeira das empresas.

Um levantamento da Serasa Experian revela que, com o aumento dos juros, empresas têm enfrentado custos de crédito mais altos, dificultando o acesso ao financiamento e levando à redução de receita. A pesquisa mostra que, em janeiro de 2025, o número de companhias inadimplentes chegou a 7,1 milhões, o equivalente a 31,4% das empresas existentes no país.

De acordo com Edson Silva, fundador e presidente da Nexxera, as empresas aparentemente saudáveis podem enfrentar dificuldades financeiras mesmo apresentando crescimento de receita e indicadores positivos.

"Os modelos tradicionais de análise de crédito já se mostram insuficientes diante da dinâmica atual. Eles ainda dependem fortemente de informações estáticas, como balanços e históricos financeiros, mas isso já não é suficiente para capturar a dinâmica transacional das cadeias produtivas", afirma.

Para o executivo, o desafio atual vai além da inadimplência. "O problema deixou de ser apenas se a empresa vai receber e passou a ser quando ela vai receber. O timing do fluxo financeiro impacta diretamente a necessidade de capital de giro e o custo das operações", explica.

Diante desse panorama, Silva ressalta que a duplicata escritural começa a ganhar relevância por ampliar a rastreabilidade e a confiabilidade dos recebíveis. Ao vincular a obrigação diretamente à nota fiscal e registrar a operação em sistemas autorizados, o modelo cria uma trilha digital auditável das transações comerciais.

Na prática, isso permite acompanhar vencimentos, liquidações e histórico de pagamentos de forma mais estruturada. Com dados padronizados e rastreáveis, instituições financeiras conseguem avaliar melhor o comportamento transacional das empresas e reduzir incertezas na concessão de crédito.

Segundo Edson Silva, o modelo também reduz inconsistências operacionais e fraudes relacionadas aos recebíveis, além de ampliar a visibilidade sobre o fluxo financeiro das companhias. Isso favorece decisões mais precisas sobre crédito, estoques, investimentos e necessidade de capital.

"A leitura em tempo real da capacidade financeira de cada elo da cadeia produtiva ajuda a tornar a avaliação de risco mais eficiente. Entender a situação financeira dos parceiros de negócio é essencial para definir quanto investir e quando investir, mantendo estoques regulados e maior estabilidade financeira", afirma o fundador e presidente da Nexxera.

Digitalização e análise contínua de dados

O avanço da digitalização e da integração via APIs também vem ampliando a capacidade de análise em tempo real. As plataformas deixam de atuar apenas como transportadoras de dados e passam a incorporar inteligência analítica sobre o comportamento financeiro das empresas e suas relações dentro da cadeia produtiva.

"As soluções tradicionais de integração deixam de ser meros transportadores de dados e passam a aplicar inteligência, permitindo que o tratamento seja feito em favor do proprietário. Isso possibilita análise em tempo real dos relacionamentos com a cadeia produtiva e traça o comportamento financeiro das empresas", avalia o executivo.

A Nexxera acompanha essa evolução com foco em inovação. A empresa aposta na integração de dados e na análise contínua como caminho para redefinir a lógica do risco de crédito, tornando-o mais aderente à realidade das empresas brasileiras.

"Dados são fundamentais para sustentar essa transformação. Como empresa especializada na integração de transações mercantis e financeiras, buscamos modernizar o mercado e desenvolver soluções alinhadas a essa nova dinâmica operacional", reforça.

Edson Silva conclui que, à medida que cresce o volume de operações digitais e transações a prazo, o mercado tende a migrar para modelos de crédito cada vez mais baseados em comportamento transacional, previsibilidade de caixa e monitoramento contínuo das cadeias de negócios que reduzem o risco, influenciando a redução de taxas de juros e ampliando o acesso ao capital.

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